FUVEST: ACESSO NEGADO

August 29th, 2008 by andrevalente

Segue o manifesto do movimento “FUVEST: Acesso Negado”, que vem mobilizando estudantes para não deixarmos passar batido o vestibular desse ano, que mais uma vez traz um espetáculo de exclusão. E esse ano com novo agravante: a inscrição presencial.
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FUVEST: ACESSO NEGADO

 

PARA QUE SERVE A FUVEST? A QUEM SERVE A FUVEST?

QUAL A INFLUÊNCIA DA FUVEST NA USP?

 

QUER SABER POR QUE VOCÊ FOI APROVADO OU REPROVADO? ACESSO NEGADO. A FUVEST não libera dados da correção, que não pode ser questionada. Teve quem já foi à justiça para poder ver sua prova, sem sucesso: a tramitação demora meses, e a FUVEST queima as provas corrigidas. Quem é inquestionável? Quem não tem erros?

VOCÊ É NEGRO OU POBRE E QUER ENTRAR NA USP? ACESSO NEGADO. Apenas 1,77% dos negros e 2,02% dos pobres que fazem a prova são aprovados. Para os brancos e classe média ou alta, a taxa de aprovação é quase 10 vezes maior. Será que negros e pobres não têm capacidade de fazer universidade? Que sistema é esse que os exclui historicamente?

NÃO SABE INGLÊS? ACESSO NEGADO. A FUVEST avalia o “capital cultural” dos candidatos, ou seja, seu acúmulo de informação e de treino. Quem consegue só estudar por 11 anos, fazer cursinho e aula de inglês, tem vantagem. Há quem diz que, se simplesmente a prova de inglês fosse eliminada, o perfil dos aprovados já mudaria consideravelmente, pois é o mais elitista dos conhecimentos. Mas imagina, não dá pra estudar Letras - Francês sem saber a língua do Tio Sam. Que tipo de conhecimento está sendo avaliado no vestibular?

QUER SABER SE REALMENTE FORAM SELECIONADOS OS CANDIDATOS MAIS ADEQUADOS PARA CADA CURSO? ACESSO NEGADO. Algumas faculdades já tentaram pedir esclarecimentos, mas a FUVEST não presta contas a ninguém. De acordo com um Chefe de Departamento: “Para a FUVEST, a USP não existe”. Que instituição é essa que tem o poder de determinar quem irá e quem não irá entrar em cada curso, mas não discute nem presta contas sobre isso?

Carta de Despedida de Che a Fidel

July 27th, 2007 by andrevalente

Fidel:

Neste momento recordo muitas cousas: quando te conhecim em casa da Maria Antónia, quando me propugeche acompanhar-te, toda a tensom dos preparativos.

Um dia passárom perguntando a quem se devia avisar em caso de morte, e a possibilidade real do facto chocou-nos a todos. Depois soubemos que era certo, que numha revoluçom se triunfa ou se morre, se é verdadeira, e muitos companheiros ficárom ao longo do caminho para a vitória.

Hoje todo tem um tom menos dramático porque estamos mais maduros, mas o facto repete-se. Sinto que cumprim a minha parte do dever que me ligava à revoluçom Cubana no seu território e despido-me de ti, dos companheiros, do teu povo, que é já o meu.

Renuncio formalmente aos meus cargos na Direcçom do Partido, ao meu posto de ministro, ao meu grau de comandante, à minha condiçom de cubano. Nada legal me liga a Cuba, só laços de outra classe, que nom se podem partir como as nomeaçons.

Ao rever a minha vida passada, creio ter trabalhado com suficiente honestidade e dedicaçom para consolidar o triunfo revolucionário. O meu único erro com algumha gravidade foi nom ter confiado mais em ti desde os primeiros momentos da Sierra Maestra, e nom ter compreendido com celeridade suficiente as tuas qualidades de dirigente e de revolucionário.

Vivim dias magníficos e sentim ao teu lado o orgulho de pertencer ao nosso povo nos dias luminosos e tristes da Crise das Caraíbas. Poucas vezes brilhou mais alto um estadista que nesses dias; orgulho-me também de te ter seguido sem vacilar, identificado com a tua maneira de pensar e de ver e apreciar os perigos e os princípios.

Outras serras do mundo reclamam o concurso dos meus modestos esforços. Eu podo fazer o que te está negado pola tua responsabilidade à frente de Cuba e chegou a hora de separar-nos.

Saiba-se que o fago com umha mescla de alegria e dor: aqui deixo o mais puro das minhas esperanças de construtor e o mais querido entre os meus seres queridos, e deixo um povo que me admitiu como um filho; isso lacera umha parte do meu espíritu; aos novos campos de batalha levarei a fé que me inculcache, o espírito revolucinário do meu povo, a sensaçom de cumprir com o mais sagrado dos deveres: luitar contra o imperialismo onde quer que se encontre; isto reconforta e cura amplamente qualquer afliçom.

Repito mais umha vez que liberto Cuba de qualquer responsabilidade, salvo a que emana do seu exemplo; que se a hora definitiva me chega sob outros céus, o meu último pensamento será para este povo e especialmente para ti; que che digo obrigado polos teus ensinamentos e polo teu exemplo, ao que tentarei ser fiel até as últimas conseqüências dos meus actos; que estivem sempre identificado com a política externa da nossa Revoluçom, e continuo a estar; que onde quer que me detenha sentirei a responsabilidade de ser revolucionário cubano, e como tal actuarei; que nom deixo aos meus filhos e à minha mulher nada material e nom me apena: alegra-me que assim seja. Que nada pido para eles, pois o estado dará-lhes o suficiente para viver e educar-se.

Teria muitas cousas que dizer a ti e ao nosso povo, mas sinto que nom som necessárias as palavras e nom podem expressar o que eu desejaria; nom vale a pena deitar mais borrons no papel.

Até a vitória sempre. Pátria ou morte!

Abraça-te com todo o fervor revolucionário,

Che

Coisas que aprendi…

May 6th, 2007 by andrevalente

COISAS QUE APRENDI…

Minha mãe me ensinou a dar valor ao trabalho dos outros:
“ SE VOCÊ E O SEU IRMÃO QUEREM SE MATAR, VÃO PARA FORA, ACABEI DE LIMPAR A CASA!”
Me ensinou a ter fé:
“ É MELHOR VOCÊ REZAR PRA SAIR ESSA  MANCHA DO TAPETE”
Minha mãe me ensinou lógica e hierarquia:
“ PORQUE EU ESTOU DIZENDO, ACABOU, PONTO FINAL!”
Minha mãe me ensinou o que é motivação:
“ CONTINUA CHORANDO QUE EU VOU TE DAR UM BOM MOTIVO PRA CHORAR!”
Me ensinou a contradição:
“ FECHA A BOCA E COME!!!”

Minha mãe me ensinou a ter força de vontade:
“ VOCÊ VAI FICAR AI SENTADO ATÉ COMER TUDO”
Me ensinou a valorizar um sorriso:
“ ME RESPONDE DE NOVO E EU TE ARRENBENTO OS DENTES!!!”
Minha mãe me ensinou a retidão:
“ EU TE AJEITO NEM QUE SEJA NO TAPA!!!”

Por tudo isso,  OBRIGADA MAMÃE!

Por que a maconha é proibida?

February 13th, 2007 by andrevalente
Por que a maconha é proibida?
 
Poucos assuntos dão margem a tanta mentira,tanta 
deturpação, tanta desinformação. Afinal, quais os 
verdadeiros motivos por trás da proibição da maconha? 
A droga faz mal ou não? 
 
Por que a maconha é proibida? Porque faz mal à saúde. 
Será mesmo? 
 
Então, por que o bacon não é proibido? Ou as 
anfetaminas? E, diga-se de passagem, nenhum mal sério 
à saúde foi comprovado para o uso esporádico de 
maconha. 
 
A guerra contra essa planta foi motivada muito mais 
por fatores raciais, econômicos, políticos e morais do 
que por argumentos científicos. 
 
E algumas dessas razões são inconfessáveis. Tem a ver 
com o preconceito contra árabes, chineses, mexicanos e 
negros, usuários freqüentes de maconha no começo do 
século XX. 
 
Deve muito aos interesses de indústrias poderosas dos 
anos 20, que vendiam tecidos sintéticos e papel e 
queriam se livrar de um concorrente, o cânhamo. 
 
Tem raízes também na bem-sucedida estratégia de 
dominação dos Estados Unidos sobre o planeta. 
 
E, é claro, guarda relação com o moralismo 
judaico-cristão (e principalmente 
protestante-puritano), que não 
aceita a idéia do prazer sem merecimento – pelo mesmo 
motivo, no passado, condenou-se a masturbação. 
 
 
POR QUE É PROIBIDO? Parte 1 – Sede de Poder 
 
“O corpo esmagado da menina jazia espalhado na calçada 
um dia depois de mergulhar do quinto andar de um 
prédio de apartamentos em Chicago. Todos disseram que 
ela tinha se suicidado, mas, na verdade, foi 
homicídio. 
 
O assassino foi um narcótico conhecido na América como 
marijuana e na história como haxixe. 
 
Usado na forma de cigarros, ele é uma novidade nos 
Estados Unidos e é tão perigoso quanto uma cascavel.” 
 
Começa assim a matéria “Marijuana: assassina de 
jovens”, publicada em 1937 na revista American 
Magazine. 
 
A cena nunca aconteceu. O texto era assinado por um 
funcionário do governo chamado Harry Anslinger. 
 
Se a maconha, hoje, é ilegal em praticamente todo o 
mundo, não é exagero dizer que o maior responsável foi 
ele. 
 
Nas primeiras décadas do século XX, a maconha era 
liberada, embora muita gente a visse com maus olhos. 
 
Aqui no Brasil, maconha era “coisa de negro”, fumada 
nos terreiros de candomblé para facilitar a 
incorporação e nos confins do país por agricultores 
depois do trabalho. 
 
Na Europa, ela era associada aos imigrantes árabes e 
indianos e aos incômodos intelectuais boêmios. 
 
Nos Estados Unidos, quem fumava eram os cada vez mais 
numerosos mexicanos – meio milhão deles cruzaram o Rio 
Grande entre 1915 e 1930 
em busca de trabalho. Muitos não acharam. 
 
Ou seja, em boa parte do Ocidente, fumar maconha era 
relegado a classes marginalizadas e visto com 
antipatia pela classe média branca. 
 
Pouca gente sabia, entretanto, que a mesma planta que 
fornecia fumo às classes baixas tinha enorme 
importância econômica. Dezenas de remédios – de 
xaropes para tosse a pílulas para dormir – continham 
cannabis. 
 
Quase toda a produção de papel usava como 
matéria-prima a fibra do cânhamo, retirada do caule do 
pé de maconha. A indústria de tecidos também dependia 
da cannabis - o tecido de cânhamo era muito difundido, 
especialmente para fazer cordas, velas de barco, redes 
de pesca e outros produtos que exigissem um material 
muito resistente. 
 
A Ford estava desenvolvendo combustíveis e plásticos 
feitos a partir do óleo da semente de maconha. As 
plantações de cânhamo tomavam 
áreas imensas na Europa e nos Estados Unidos. 
 
Em 1920, sob pressão de grupos religiosos 
protestantes, os Estados Unidos decretaram a proibição 
da produção e da comercialização de bebidas 
alcoólicas. Era a Lei Seca, que durou até 1933. 
 
Foi aí que Henry Anslinger surgiu na vida pública 
americana – reprimindo o tráfico de rum que vinha das 
Bahamas. Foi aí, também, que a maconha entrou na vida 
de muita gente - e não só dos mexicanos. 
“A proibição do álcool foi o estopim para o ‘boom’ da 
maconha”, afirma o historiador inglês Richard 
Davenport-Hines, especialista na história dos 
narcóticos, em seu livro The Pursuit of Oblivion (A 
busca do esquecimento, ainda sem versão para o 
Brasil). “Na medida em que 
ficou mais difícil obter bebidas alcoólicas e elas 
ficaram mais caras e piores, pequenos cafés que 
vendiam maconha começaram a proliferar”, escreveu. 
 
Anslinger foi promovido a chefe da Divisão de Controle 
Estrangeiro do Comitê de Proibição e sua tarefa era 
cuidar do contrabando de bebidas. Foi nessa época que 
ele percebeu o clima de antipatia contra a maconha que 
tomava a nação. Clima esse que só piorou com a quebra 
da Bolsa, em 1929, que afundou a nação numa recessão. 
 
No sul do país, corria o boato de que a droga dava 
força sobre-humana aos mexicanos, o que seria uma 
vantagem injusta na disputa pelos escassos empregos. A 
isso se somavam insinuações de que a droga induzia ao 
sexo promíscuo (muitos mexicanos talvez tivessem mais 
parceiros que um americano puritano médio, mas isso 
não tem nada a ver com a maconha) e ao crime (com a 
crise, a criminalidade aumentou entre os mexicanos 
pobres, mas a maconha é inocente disso). 
 
Baseados nesses boatos, vários Estados começaram a 
proibir a substância. Nessa época, a maconha virou a 
droga de escolha dos músicos de jazz, que afirmavam 
ficar mais criativos depois de fumar. 
 
Anslinger agarrou-se firme à bandeira 
proibicionista,batalhou para divulgar os mitos 
antimaconha e, em 1930, quando o governo, preocupado 
com a cocaína e o ópio, criou o FBN (Federal Bureau of 
Narcotics, um 
escritório nos moldes do FBI para lidar com drogas), 
ele articulou para chefiá-lo. De repente, de um cargo 
burocrático obscuro, Anslinger passou a ser o 
responsável pela política de drogas do país. E quanto 
mais substâncias fossem proibidas, mais poder ele 
teria. 
 
POR QUE É PROIBIDO? Parte 2 – Fibras sintéticas e 
papel 
 
Mas é improvável que a cruzada fosse motivada apenas 
pela sede de poder. Outros interesses devem ter 
pesado. Anslinger era casado com a sobrinha de Andrew 
Mellon, dono da gigante petrolífera Gulf Oil e um dos 
principais investidores da igualmente gigante Du Pont. 
 
“A Du Pont foi uma das maiores responsáveis por 
orquestrar a destruição da indústria do cânhamo”, 
afirma o escritor Jack Herer, em seu livro The Emperor 
Wears No Clothes (O imperador está nu, ainda sem 
tradução). 
 
Nos anos 20, a empresa estava desenvolvendo vários 
produtos a partir do petróleo: aditivos para 
combustíveis, plásticos, fibras sintéticas como o 
náilon e processos químicos para a fabricação de papel 
feito de madeira. 
 
Esses produtos tinham uma coisa em comum: disputavam o 
mercado com o cânhamo. Seria um empurrão considerável 
para a nascente indústria de 
sintéticos se as imensas lavouras de cannabis fossem 
destruídas, tirando a fibra do cânhamo e o óleo da 
semente do mercado. 
 
“A maconha foi proibida por interesses econômicos, 
especialmente para abrir o mercado das fibras naturais 
para o náilon”, afirma o jurista Wálter Maierovitch, 
especialista em tráfico de entorpecentes e 
ex-secretário nacional antidrogas. 
 
Anslinger tinha um aliado poderoso na guerra contra a 
maconha: William Randolph Hearst, dono de uma imensa 
rede de jornais. Hearst era a pessoa mais influente 
dos Estados Unidos. 
 
Milionário, comandava suas empresas de um castelo 
monumental na Califórnia, onde recebia artistas de 
Hollywood para passear pelo 
zoológico particular ou dar braçadas na piscina 
coberta adornada com estátuas gregas. 
 
Foi nele que Orson Welles se inspirou para criar o 
protagonista do 
filme Cidadão Kane. Hearst sabidamente odiava 
mexicanos. Parte desse ódio talvez se devesse ao fato 
de que, durante a Revolução Mexicana de 1910, as 
tropas de Pancho Villa (que, aliás, faziam uso 
freqüente de maconha) desapropriaram uma enorme 
propriedade sua. 
 
Sim, Hearst era dono de terras e as usava para plantar 
eucaliptos e outras árvores para produzir papel. Ou 
seja, ele também tinha interesse em que a maconha 
americana fosse destruída – levando com 
ela a indústria de papel de cânhamo. 
 
Hearst iniciou, nos anos 30, uma intensa campanha 
contra a maconha. Seus jornais passaram a publicar 
seguidas matérias sobre a droga, às vezes afirmando 
que a maconha fazia os mexicanos estuprarem mulheres 
brancas, outras noticiando que 60% dos crimes eram 
cometidos sob efeito da droga (um número tirado 
sabe-se lá de onde). 
Nessa época, surgiu a história de que o fumo mata 
neurônios, um mito repetido até hoje. 
 
Foi Hearst que, se não inventou, ao menos popularizou 
o nome marijuana (ele queria uma palavra que soasse 
bem hispânica, para permitir a associação direta entre 
a droga e os mexicanos). 
 
Anslinger era presença constante nos jornais de 
Hearst, onde contava suas histórias de terror. A 
opinião pública ficou apavorada. Em 1937, Anslinger 
foi ao Congresso dizer que, sob o efeito da maconha, 
“algumas pessoas embarcam numa raiva delirante e 
cometem crimes 
violentos”. 
 
Os deputados votaram pela proibição do cultivo, da 
venda e do uso da cannabis, sem levar em conta as 
pesquisas que afirmavam que a substância era segura. 
 
Proibiu-se não apenas a droga, mas a planta. O homem 
simplesmente cassou o direito da espécie Cannabis 
sativa de existir. 
 
POR QUE É PROIBIDO? Parte 3 – Controle Social 
 
Anslinger também atuou internacionalmente. Criou uma 
rede de espiões e passou a freqüentar as reuniões da 
Liga das Nações, antecessora da ONU, propondo tratados 
cada vez mais duros para reprimir o tráfico 
internacional. 
 
Também começou a encontrar líderes de vários países e 
a levar a eles os mesmos argumentos aterrorizantes que 
funcionaram com os americanos. 
Não foi difícil convencer os governos – já na década 
de 20 o Brasil adotava leis federais antimaconha. A 
Europa também embarcou na onda proibicionista. 
 
“A proibição das drogas serve aos governos porque é 
uma forma de controle social das minorias”, diz o 
cientista político Thiago Rodrigues, pesquisador do 
Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre 
Psicoativos. Funciona assim: maconha é coisa de 
mexicano, mexicanos são uma classe incômoda. “Como não 
é possível proibir alguém de ser mexicano, proíbe-se 
algo que seja típico dessa etnia”, diz Thiago. 
 
Assim, é possível manter sob controle todos os 
mexicanos - eles estarão sempre ameaçados de cadeia. 
Por isso a proibição da maconha fez tanto sucesso no 
mundo. 
 
O governo brasileiro achou ótimo mais esse instrumento 
para manter os negros sob controle. 
 
Os europeus também adoraram poder enquadrar seus 
imigrantes. 
 
A proibição foi virando uma forma de controle 
internacional por parte dos Estados Unidos, 
especialmente depois de 1961, quando uma convenção da 
ONU determinou que as drogas são ruins para a saúde e 
o bem-estar da humanidade e, portanto, eram 
necessárias ações coordenadas e universais para 
reprimir seu uso. 
 
“Isso abriu espaço para intervenções militares 
americanas”, diz Maierovitch. “Virou um pretexto 
oportuno para que os americanos possam entrar em 
outros países e exercer os seus interesses 
econômicos.” 
 
 
Estava erguida uma estrutura mundial interessada em 
manter as drogas na ilegalidade, a maconha entre elas. 
 
Um ano depois, em 1962, o presidente John Kennedy 
demitiu Anslinger – depois de nada menos que 32 anos à 
frente do FBN. Um grupo formado para analisar os 
efeitos da droga concluiu que os riscos da maconha 
estavam sendo exagerados e que a tese de que ela 
levava a drogas mais pesadas era furada. 
 
Mas não veio a descriminalização. Pelo contrário. O 
presidente 
Richard Nixon endureceu mais a lei, declarou “guerra 
às drogas” e criou o DEA (em português, Escritório de 
Coação das Drogas), um órgão ainda mais poderoso que o 
FBN, porque, além de definir políticas, tem poder de 
polícia. 
 
MACONHA FAZ MAL? 
 
Taí uma pergunta que vem sendo feita faz tempo. Depois 
de mais de um século de pesquisas, a resposta mais 
honesta é: faz, mas muito pouco e só para casos 
extremos. O uso moderado não faz mal. 
 
A preocupação da ciência com esse assunto começou em 
1894, quando a 
Índia fazia parte do Império Britânico. Havia, então, 
a desconfiança de que o bhang, uma bebida à base de 
maconha muito comum na Índia, causava demência. 
 
Grupos religiosos britânicos reivindicavam sua 
proibição. 
Formou-se a Comissão Indiana de Drogas da Cannabis, 
que passou dois anos investigando o tema. O relatório 
final desaconselhou a proibição: “O bhang é quase 
sempre inofensivo quando usado com moderação e, em 
alguns casos, é benéfico. O abuso do bhang é menos 
prejudicial que o abuso do álcool”. 
 
Em 1944, um dos mais populares prefeitos de Nova York, 
Fiorello La Guardia, encomendou outra pesquisa. Em 
meio à histeria antimaconha de Anslinger, La Guardia 
resolveu conferir quais os reais riscos da tal droga 
assassina. 
 
Os cientistas escolhidos por ele fizeram testes com 
presidiários (algo comum na época) e concluíram: “O 
uso prolongado da droga não leva à 
degeneração física, mental ou moral”. O trabalho 
passou despercebido no meio da barulheira 
proibicionista de Anslinger. 
 
A partir dos anos 60, várias pesquisas parecidas foram 
encomendadas por outros governos. Relatórios 
produzidos na Inglaterra, no Canadá e nos Estados 
Unidos aconselharam um afrouxamento nas leis. Nenhuma 
dessas pesquisas foi suficiente para forçar uma 
mudança. 
 
Mas a experiência mais reveladora sobre a maconha e 
suas conseqüências foi realizada fora do laboratório. 
 
Em 1976, a Holanda decidiu parar de prender usuários 
de maconha desde que eles comprassem a droga em cafés 
autorizados. Resultado: o índice de usuários continua 
comparável aos de outros países da Europa. O de jovens 
dependentes de heroína caiu - estima-se que, ao tirar 
a maconha da mão dos traficantes, os holandeses 
separaram essa droga das mais pesadas e, assim, 
dificultaram o acesso a elas. 
 
Nos últimos anos, os possíveis males da maconha foram 
cuidadosamente escrutinados – às vezes por 
pesquisadores competentes, às vezes por gente mais 
interessada em convencer os outros da sua opinião. 
 
Veja abaixo um resumo do que se sabe: 
 
Câncer - Não se provou nenhuma relação direta entre 
fumar maconha e câncer de pulmão, traquéia, boca e 
outros associados ao cigarro. Isso não quer dizer que 
não haja. Por muito tempo, os riscos do cigarro foram 
negligenciados e só nas últimas duas décadas ficou 
claro que havia uma bomba-relógio armada - porque os 
danos só se manifestam depois de décadas de uso 
contínuo. 
 
Há o temor de que uma bomba semelhante esteja para 
explodir no caso da maconha, cujo uso se popularizou a 
partir dos anos 60. O que se sabe é que o cigarro de 
maconha tem praticamente a mesma composição de um 
cigarro comum – a única diferença significativa é o 
princípio ativo. 
 
No cigarro é a nicotina, na maconha o 
tetrahidrocanabinol, ou THC. 
Também é verdade que o fumante de maconha tem 
comportamentos mais arriscados que o de cigarro: traga 
mais profundamente, não usa filtro e segura a fumaça 
por mais tempo no pulmão (o que, aliás, segundo os 
cientistas, não aumenta os efeitos da droga). 
 
Em compensação, boa parte dos maconheiros fuma muito 
menos e pára ou reduz o consumo depois dos 30 anos 
(parar cedo é sabidamente uma forma de diminuir 
drasticamente o risco de câncer). 
 
Em resumo: o usuário eventual de maconha, que é o mais 
comum, não precisa se preocupar com um aumento grande 
do risco de câncer. 
Quem fuma mais de um baseado por dia há mais de 15 
anos deve pensar em parar. 
 
Dependência - Algo entre 6% e 12% dos 
usuários,dependendo da pesquisa, desenvolve um uso 
compulsivo da maconha (menos que a metade das taxas 
para álcool e tabaco). A questão é: será que a maconha 
é a causa da 
dependência ou apenas uma válvula de escape. 
 
“Dependência de maconha não é problema da substância, 
mas da pessoa”, afirma o psiquiatra Dartiu Xavier, 
coordenador do Programa de Orientação e Atendimento a 
Dependentes da Escola Paulista de Medicina. 
Segundo Dartiu, há um perfil claro do dependente de 
maconha: em geral, ele é jovem, quase sempre ansioso e 
eventualmente depressivo. Pessoas que não se encaixam 
nisso não desenvolvem o vício. “E as que se encaixam 
podem tanto ficar dependentes de maconha quanto de 
sexo, de jogo, de internet”, diz. 
 
Muitos especialistas apontam para o fato de que a 
maconha está ficando mais perigosa – na medida em que 
fica mais potente. Ao longo dos últimos 40 anos, foi 
feito um melhoramento genético, cruzando plantas com 
alto teor de THC. Surgiram variedades como o skunk. 
 
No último ano, foram apreendidos carregamentos de 
maconha alterada geneticamente no Leste europeu – a 
engenharia genética é usada para aumentar a potência, 
o que poderia aumentar o potencial de dependência. 
 
Segundo o farmacólogo Leslie Iversen, autor do ótimo 
The Science 
of Marijuana (A ciência da maconha, sem tradução para 
o português) e consultor para esse tema da Câmara dos 
Lordes (o Senado inglês), esses temores são exagerados 
e o aumento da concentração de THC não foi tão grande 
assim. 
 
Para além dessa discussão, o fato é que, para quem é 
dependente, maconha faz muito mal. Isso é 
especialmente verdade para crianças e adolescentes. “O 
sujeito com 15 anos não está com a personalidade 
formada. O uso exagerado de maconha pode ser muito 
danoso a ele”, diz Dartiu. O maior risco para 
adolescentes que fumam maconha é a síndrome 
amotivacional, nome que se dá à completa perda de 
interesse que a droga causa em algumas pessoas. A 
síndrome amotivacional é muito mais freqüente em 
jovens e realmente atrapalha a vida – é quase certeza 
de bomba na escola e de crise na família. 
 
Danos cerebrais - “Maconha mata neurônios.” Essa 
frase, repetida há décadas, não passa de mito. Bilhões 
de dólares foram investidos para comprovar que o THC 
destrói tecido cerebral – às vezes com pesquisas que 
ministravam doses de elefante em ratinhos –, mas nada 
foi encontrado. 
 
Muitas experiências foram feitas em busca de danos nas 
capacidades cognitivas do usuário de maconha. A maior 
preocupação é com a memória. Sabe-se que o usuário de 
maconha, quando fuma, fica com a memória de curto 
prazo prejudicada. 
 
São bem comuns os relatos de pessoas que têm idéias 
que parecem geniais durante o “barato”, mas não 
conseguem lembrar-se de nada no 
momento seguinte. Isso acontece porque a memória de 
curto prazo funciona mal sob o efeito de maconha e, 
sem ela, as memórias de longo prazo não são fixadas (é 
por causa desse “desligamento” da memória que o 
usuário perde a noção do tempo). 
Mas esse dano não é permanente. Basta ficar sem fumar 
que tudo volta a 
funcionar normalmente. O mesmo vale para o raciocínio, 
que fica mais lento quando o usuário fuma muito 
freqüentemente. 
 
Há pesquisas com usuários “pesados” e antigos, aqueles 
que fumam vários baseados por dia há mais de 15 anos, 
que mostraram que eles se saem um pouco pior em alguns 
testes, principalmente nos de memória e de atenção. As 
diferenças, no entanto, são sutis. Na comparação com o 
álcool, a maconha leva grande vantagem: beber muito 
provoca danos cerebrais irreparáveis e destrói a 
memória. 
 
Coração - O uso de maconha dilata os vasos sangüíneos 
e, para compensar, acelera os batimentos cardíacos. 
Isso não oferece risco para a maioria dos usuários, 
mas a droga deve ser evitada por quem sofre do 
coração. 
 
Infertilidade - Pesquisas mostraram que o usuário 
freqüente tem o número de espermatozóides reduzido. 
Ninguém conseguiu provar que isso possa causar 
infertilidade, muito menos impotência. Também está 
claro que os espermatozóides voltam ao normal quando 
se pára de fumar. 
 
Depressão imunológica - Nos anos 70, descobriu-se que 
o THC afeta os glóbulos brancos, células de defesa do 
corpo. No entanto, nenhuma pesquisa encontrou relação 
entre o uso de maconha e a incidência de infecções. 
 
Loucura - No passado, acreditava-se que maconha 
causava demência. Isso não se confirmou, mas sabe-se 
que a droga pode precipitar crises em quem já tem 
doenças psiquiátricas. 
Gravidez - Algumas pesquisas apontaram uma tendência 
de filhos de mães que usaram muita maconha durante a 
gravidez de nascer com menor peso. Outras não 
confirmaram a suspeita. De qualquer maneira, é melhor 
evitar qualquer droga psicoativa durante a gestação. 
Sem dúvida, a mais perigosa delas é o álcool. 
 
No geral, não. A maioria das pessoas não gosta dos 
efeitos e as afirmações de que a erva, por ser 
“natural”, faz bem, não passam de besteira. Outros 
adoram e relatam que ela ajuda a aumentar a 
criatividade, a relaxar, a melhorar o humor, a 
diminuir a ansiedade. É inevitável: cada um é um. 
 
O uso medicinal da maconha é tão antigo quanto a 
maconha. Hoje há muitas pesquisas com a cannabis para 
usá-la como remédio. Segundo o farmacólogo inglês 
Iversen, não há dúvidas de que ela seja um remédio 
útil para muitos e fundamental para alguns, mas há um 
certo exagero sobre seus potenciais. Em outras 
palavras: a maconha não é a salvação da humanidade. Um 
dos maiores desafios dos laboratórios é tentar separar 
o efeito medicinal da droga do efeito psicoativo – ou 
seja, criar uma maconha que não dê “barato”. 
 
Muitos pesquisadores estão chegando à conclusão de que 
isso é impossível: aparentemente, as mesmas 
propriedades químicas que alteram a percepção do 
cérebro são responsáveis pelo caráter curativo. Esse 
fato é uma das limitações da maconha como medicamento, 
já que muitas pessoas não gostam do efeito mental. No 
Brasil, assim como em boa parte do mundo, o uso médico 
da cannabis é proibido e milhares de pessoas usam o 
remédio ilegalmente. Conheça alguns dos usos: 
 
Câncer - Pessoas tratadas com quimioterapia muitas 
vezes têm enjôos terríveis, eventualmente tão 
terríveis que elas preferem a doença ao remédio. Há 
medicamentos para reduzir esse enjôo e eles são 
eficientes. No entanto, alguns pacientes não respondem 
a nenhum remédio legal e respondem maravilhosamente à 
maconha. Era o caso do brilhante escritor e 
paleontólogo Stephen Jay Gould, que, no mês passado, 
finalmente, perdeu uma batalha de 20 anos contra o 
câncer (leia mais sobre ele). 
 
Gould nunca tinha usado drogas psicoativas – ele 
detestava a idéia de que interferissem no 
funcionamento do cérebro. Veja o que ele disse: “A 
maconha funcionou como uma mágica. Eu não gostava do 
‘efeito colateral’ que era o borrão mental. Mas a 
alegria cristalina de não ter náusea – e de não 
experimentar o pavor nos dias que antecediam o 
tratamento – foi o maior incentivo em todos os meus 
anos de quimioterapia”. 
 
Aids - Maconha dá fome. Qualquer um que fuma sabe 
disso (aliás, esse é um de seus inconvenientes: ela 
engorda). Nenhum remédio é tão eficiente para 
restaurar o peso de portadores do HIV quanto a 
maconha. 
E isso pode prolongar muito a vida: acredita-se que 
manter o peso seja o principal requisito para que um 
soropositivo não desenvolva a doença. O problema: a 
cannabis tem uma ação ainda pouco compreendida no 
sistema imunológico. Sabe-se que isso não representa 
perigo para pessoas saudáveis, mas pode ser um risco 
para doentes de Aids. 
 
Esclerose múltipla - Essa doença degenerativa do 
sistema nervoso é terrivelmente incômoda e fatal. Os 
doentes sentem fortes espasmos musculares, muita dor e 
suas bexigas e intestinos funcionam muito mal. 
 
Acredita-se que ela seja causada por uma má função do 
sistema imunológico, que faz com que as células de 
defesa ataquem os neurônios. A maconha alivia todos os 
sintomas. Ninguém entende bem por que ela é tão 
eficiente, mas especula-se que tenha a ver com seu 
pouco compreendido efeito no sistema imunológico. 
 
Dor - A cannabis é um analgésico usado em várias 
ocasiões. Os relatos de alívio das cólicas menstruais 
são os mais promissores. 
 
Glaucoma - Essa doença caracteriza-se pelo aumento da 
pressão do líquido dentro do olho e pode levar à 
cegueira. Maconha baixa a pressão intraocular. O 
problema é que, para ser um remédio eficiente, a 
pessoa tem que fumar a cada três ou quatro horas, o 
que não é prático e, com certeza, é nocivo (essa dose 
de maconha deixaria o paciente eternamente “chapado”). 
 
Há estudos promissores com colírios feitos à base de 
maconha, que agiriam diretamente no olho, sem afetar o 
cérebro. 
 
Ansiedade - Maconha é um remédio leve e pouco 
agressivo contra a ansiedade. Isso, no entanto, 
depende do paciente. Algumas pessoas melhoram após 
fumar; outras, principalmente as pouco habituadas à 
droga, têm o efeito oposto. Também há relatos de 
sucesso no tratamento de depressão e insônia, casos em 
que os remédios disponíveis no mercado, embora sejam 
mais eficientes, são também bem mais agressivos e têm 
maior potencial de dependência. 
 
Dependência - Dois psiquiatras brasileiros, Dartiu 
Xavier e Eliseu Labigalini, fizeram uma experiência 
interessante. Incentivaram dependentes de crack a 
fumar maconha no processo de largar o vício. 
 
Resultado: 68% deles abandonaram o crack e, depois, 
pararam espontaneamente com a maconha, um índice 
altíssimo. Segundo eles, a maconha é um remédio feito 
sob medida para combater a dependência de crack e 
cocaína, porque estimula o apetite e combate a 
ansiedade, dois problemas sérios para cocainômanos. 
 
Dartiu e Eliseu pretendem continuar as pesquisas, mas 
estão com problemas para conseguir financiamento – 
dificilmente um órgão público investirá num trabalho 
que aposte nos benefícios da maconha. 
 
O PASSADO 
 
O primeiro registro do contato entre o Homo sapiens e 
a Cannabis sativa é de 6 000 anos atrás. Trata-se da 
marca de uma corda de cânhamo impressa em cacos de 
barro, na China. O emprego da fibra, não só em cordas 
mas também em vários tecidos e, depois, na fabricação 
de papel, é um dos mais antigos usos da maconha. 
 
Graças a ele, a planta, original da região ao norte do 
Afeganistão, nos pés do Himalaia, tornou-se a primeira 
cultivada pelo homem com usos não alimentícios e 
espalhou-se por toda a Ásia e depois pela Europa e 
África. 
 
Mas há um uso da maconha que pode ser tão antigo 
quanto o da fibra do cânhamo: o medicinal. Os chineses 
conhecem há pelo menos 2 000 anos o poder curativo da 
droga, como prova o Pen-Ts’ao Ching, considerado a 
primeira farmacopéia conhecida do mundo (farmacopéia é 
um livro que reúne fórmulas e receitas de 
medicamentos). 
 
O livro recomenda o uso da maconha contra 
prisão-de-ventre, malária, reumatismo e dores 
menstruais. 
 
Também na Índia, a erva já há milênios é parte 
integral da medicina ayurvédica, usada no tratamento 
de dezenas de doenças. Sem falar que ela ocupa um 
lugar de destaque na religião hindu. Pela mitologia, 
maconha era a comida favorita do deus Shiva, que, por 
isso, viveria o tempo todo “chapado”. 
 
Tomar bhang seria uma forma de entrar em comunhão com 
Shiva. 
 
O Hinduísmo não é a única religião a dar destaque para 
a cannabis. 
 
Para os budistas da tradição Mahayana, Buda passou 
seis anos comendo apenas uma semente de maconha por 
dia. Sua iluminação teria sido atingida após esse 
período de quase-jejum. 
 
Da Índia, a maconha migrou para a Mesopotâmia, ainda 
em tempos 
pré-cristãos, e de lá para o Oriente Médio. Portanto, 
ela já estava presente na região quando começou a 
expansão do Império Árabe. 
 
Com a proibição do álcool entre o povo de Maomé, 
iniciou-se uma acalorada discussão sobre se a maconha 
deveria ser banida também. Por séculos, consumiu-se 
cannabis abundantemente nas terras muçulmanas até que, 
na Idade Média, muitos islâmicos abandonaram o hábito. 
 
A exceção foram os sufi, membros de uma corrente 
considerada mais mística e esotérica do Islã, que, até 
bem recentemente, consideravam a cannabis fundamental 
em seus ritos. 
Os gregos usaram velas e cordas de cânhamo nos seus 
navios, assim como, depois, os romanos. Sabe-se que o 
Império Romano tinha pelo menos conhecimento dos 
poderes psicoativos da maconha. 
 
O historiador latino Tácito, que viveu no século I 
d.C., relata que os 
citas, um povo da atual Turquia, tinham o costume de 
armar uma tenda, acender uma fogueira e queimar grande 
quantidade de maconha. Daí ficavam lá dentro, numa 
versão psicodélica do banho turco. 
 
Graças ao contato com os árabes, grande parte da 
África conheceu a erva e incorporou-a aos seus ritos e 
à sua medicina – dos países muçulmanos acima do Saara 
até os zulus da África do Sul. 
 
A Europa toda também passou a plantar maconha e usava 
extensivamente a 
fibra do cânhamo, mas há raríssimos registros do seu 
uso como psicoativo naquele continente. Pode ser que 
isso se deva ao clima. 
 
O THC é uma resina produzida pela planta para proteger 
suas folhas e flores do sol forte. Na fria Europa, é 
possível que tenha se desenvolvido uma variação da 
Cannabis sativa com menos THC, já que não havia tanto 
sol para ameaçar o arbusto. 
 
O fato é que, na Renascença, a maconha se transformou 
no principal produto agrícola da Europa. E sua 
importância não foi só econômica: a planta teve uma 
grande participação na mudança de mentalidade que 
ocorreu no século XV. 
 
Os primeiros livros depois da revolução de Gutemberg 
foram impressos em papel de cânhamo. As pinturas dos 
gênios da arte eram feitas em 
telas de cânhamo (canvas, a palavra usada em várias 
línguas para designar “tela”, é uma corruptela 
holandesa do latim cannabis). 
 
E as grandes navegações foram impulsionadas por velas 
de cânhamo – segundo o autor americano Rowan Robinson, 
autor de O Grande Livro da Cannabis, havia 80 
toneladas de cânhamo, contando o velame e as cordas, 
no barco comandado por Cristóvão Colombo em 1496. Ou 
seja, a América foi descoberta graças à maconha. 
Irônico. 
 
Sobre as luzes da Renascença caíram as sombras da 
Inquisição – um período em que a Igreja ganhou muita 
força e passou a exercer o papel de polícia, julgando 
hereges em seu tribunal e condenando bruxas à 
fogueira. 
 
“As bruxas nada mais eram do que as curandeiras 
tradicionais, principalmente as de origem celta, que 
utilizavam plantas para tratar as pessoas, às vezes 
plantas com poderes psicoativos”, diz o historiador 
Henrique Carneiro, especialista em drogas da 
Universidade Federal de Ouro Preto. 
 
Não há registros de que maconheiros tenham sido 
queimados no século XVI – inclusive porque o uso 
psicoativo da maconha era incomum na Europa – , mas é 
certo que cristalizou-se naquela época uma antipatia 
cristã por plantas que alteram o estado de 
consciência. 
 
“O Cristianismo afirmou seu caráter de religião 
imperial e, sob seus domínios, a única droga permitida 
é o álcool, associado com o sangue de Cristo”, diz 
Henrique. 
Em 1798, as tropas de Napoleão conquistaram o 
Egito.Até hoje não estão muito claras as razões pelas 
quais o imperador francês se aventurou no norte da 
África (vaidade, talvez). Mas pode ser que o principal 
motivo 
fosse a intenção de destruir as plantações de maconha, 
que abasteciam de cânhamo a poderosa Marinha da 
Inglaterra. 
 
O fato é que coube a Napoleão promulgar a primeira lei 
do mundo moderno proibindo a maconha. Os egípcios eram 
fumantes de haxixe, a resina extraída da folha e da 
flor da maconha constituída de THC 
concentrado. Mas a proibição saiu pela culatra. Os 
egípcios ignoraram a lei e continuaram fumando como 
sempre fizeram. 
 
Em compensação, os europeus ouviram falar da droga e 
ela rapidamente virou moda na Europa, principalmente 
entre os intelectuais. “O haxixe está substituindo o 
champagne”, disse o escritor Théophile Gautier em 
1845, depois da conquista da Argélia, que, na época, 
era outro grande consumidor de THC. 
 
No Brasil, a planta chegou cedo, talvez ainda no 
século XVI, trazida pelos escravos (o nome “maconha” 
vem do idioma quimbundo, de Angola. Mas, até o século 
XIX, era mais usual chamar a erva de fumo-de-angola ou 
de diamba, nome também quimbundo). 
 
Por séculos, a droga foi tolerada no país, 
provavelmente fumada em 
rituais de candomblé (teria sido o presidente Getúlio 
Vargas que negociou a retirada da maconha dos 
terreiros, em troca da legalização da religião). 
 
Em 1830, o Brasil fez sua primeira lei restringindo a 
planta. A Câmara Municipal do Rio de Janeiro tornou 
ilegal a venda e o uso da droga na cidade e determinou 
que “os contraventores serão multados, a saber: o 
vendedor em 20 000 réis, e os escravos e demais 
pessoas, que dele usarem, em três dias de cadeia.” 
 
Note que, naquela primeira lei proibicionista, a pena 
para o uso era mais rigorosa que a do traficante. Há 
uma razão para isso. Ao contrário do que acontece 
hoje, o vendedor vinha da classe média branca e o 
usuário era quase sempre negro e escravo. 
 
O PRESENTE 
 
Segundo dados da ONU, 147 milhões de pessoas fumam 
maconha no mundo, o que faz dela a terceira droga 
psicoativa mais consumida do mundo, depois do tabaco e 
do álcool. 
 
A droga é proibida em boa parte do mundo, mas, desde 
que a Holanda começou a tolerá-la, na década de 70, 
alguns outros países europeus seguiram os passos da 
descriminalização. Itália e Espanha há tempos aceitam 
pequenas quantidades da erva – embora a Espanha esteja 
abandonando a posição branda e haja projetos de lei, 
na Itália, no mesmo sentido. 
 
O Reino Unido acabou de anunciar que descriminalizou o 
uso da 
maconha – a partir do ano que vem, a droga será 
apreendida e o portador receberá apenas uma 
advertência verbal. Os ingleses esperam, assim, poder 
concentrar seus esforços na repressão de drogas mais 
pesadas. 
 
No ano passado, Portugal endureceu as penas para o 
tráfico, mas descriminalizou o usuário de qualquer 
droga, desde que ele seja encontrado com quantidades 
pequenas. Porte de drogas virou uma 
infração administrativa, como parar em lugar proibido. 
 
Nos últimos anos, os Estados Unidos também mudaram sua 
forma de lidar com as drogas. Dentro da tendência 
mundial de ver a questão mais como um problema de 
saúde do que criminal, o país, em vez de botar na 
cadeia, obriga o usuário a se tratar numa clínica para 
dependentes. 
 
“Essa idéia é completamente equivocada”, afirma o 
psiquiatra Dartiu Xavier, refletindo a opinião de 
muitos especialistas. “Primeiro porque nem todo 
usuário é dependente. Segundo, porque um tratamento 
não funciona se é compulsório – a pessoa tem que 
querer parar”, diz. No sistema americano, quem recusa 
o tratamento ou o abandona vai para a cadeia. 
 
Portanto, não é uma descriminalização. “Chamo esse 
sistema de ’solidariedade autoritária’”, diz o jurista 
Maierovitch. O Brasil planeja adotar o mesmo modelo. 
 
O FUTURO 
 
Há possibilidades de uma mudança no tratamento à 
maconha? “No Brasil, não é fácil”, diz Maierovitch, 
que, enquanto era secretário nacional antidrogas do 
governo de Fernando Henrique Cardoso, planejou a 
descriminalização. “A lei hoje em vigor em Portugal 
foi feita em conjunto conosco, com o apoio do 
presidente”, afirma. A idéia é que ela fosse colocada 
em prática ao mesmo tempo nos dois países. 
 
Segundo Maierovitch, Fernando Henrique mudou de idéia 
depois. 
O jurista afirma que há uma enorme influência 
americana na política de drogas brasileira. O fato é 
que essa questão mais tira do que dá votos e assusta 
os políticos – e não só aqui no Brasil. O deputado 
federal Fernando Gabeira, hoje no Partido dos 
Trabalhadores, é um dos poucos identificados com a 
causa da descriminalização. “Pretendo, como um 
primeiro passo, tentar a legalização da maconha para 
uso médico”, diz. Mas suas idéias estão longe de ser 
unanimidade mesmo dentro do seu partido. 
 
No remoto caso de uma legalização da compra e da 
venda, haveria dois modelos possíveis. Um seria o 
monopólio estatal, com o governo plantando e 
fornecendo as drogas, para permitir um controle maior. 
 
A outra possibilidade seria o governo estabelecer as 
regras (composição química exigida, proibição para 
menores de idade, proibição para fumar e dirigir), 
cobrar impostos (que seriam altíssimos, inclusive para 
evitar que o preço caia muito com o fim do tráfico 
ilegal) e a iniciativa privada assumir o lucrativo 
negócio. Não há no horizonte nenhum sinal de que isso 
esteja para acontecer. Mas a Super apurou, em consulta 
ao Instituto Nacional de Propriedade Intelectual, que 
a Souza Cruz registrou, em 1997, a marca Marley – fica 
para o leitor imaginar que produto a empresa de tabaco 
pretende comercializar com o nome do ídolo do reggae.
 

Fonte: Revista Super-Interessante, agosto de 2002. 

Vôo 1907

February 13th, 2007 by andrevalente

Profª Andréia Teles.

Não vim aqui expor nenhum tese conspiradora a respeito dos fatos ocorridos
recentemente, cuja relevância se estende na morte de 154 pessoas e do
sofrimento de suas famílias. No entanto, não podemos deixar de reparar em
alguns detalhes específicos que devem ser analisados pelas autoridades
competentes.
Sabemos que no suposto acidente, entre as vítimas, havia mulheres, algumas
crianças até mesmo pastor da Assembléia de Deus.
No entanto, haviam outros passageiros que me despertaram a atenção.
Um certo grupo que estava no avião, o famoso grupo da pescaria, eram
indivíduos bastante conhecidos do meio médico-científico, conhecidos pelo
trabalho na área de engenharia genética, até mesmo desenvolvimento de alta
tecnologia.
Outros membros que também me chamaram bastante a atenção foram os membros
do ministério da defesa, e outros cientistas brasileiros na área de
antropologia, biologia e genética.
Outro passageiro que chamou bastante a atenção, foi o norte americano sem
história que também estava no avião. E ninguém sabe quem é, a não ser o
próprio seguro social nos Estados Unidos, que o identificou como um
simples transeunte americano. Só não consigo imaginar, o que um mendigo
americano fazia neste avião.
E daí vem a bomba. Alguns boatos, informaram sobre certas pesquisas
realizadas na região, assunto do governo, segredo de estado.
Não se sabe exatamente do que se tratava, apenas que vários cientistas
brasileiros estavam trabalhando no desenvolvimento de um novo tipo de
combustível baseado em vírus. Isso mesmo, produção de energia baseada na
manipulação genética de vírus, o MIT - Instituto Tecnológico de
Massasuchets estavam desenvolvendo algo parecido para criar baterias
de Laptops mais potentes, revestiram os vírus com moléculas de óxido de
cobalto e
partículas de ouro e em seguida os alinharam para formar minúsculos fios
que servem como o anodo na bateria. A equipe de oito pessoas do MIT
descreveu o trabalho em uma das edições de abril do jornal Science.
No entanto, o que se sabe do desenvolvimento da pesquisa brasileira, não
limitava-se a apenas uma simples bateria de notebook, mas em uma fonte de
energia limpa e auto suficiente, auto geradora, e a um custo baixíssimo.
A solução do século estava dentro do avião que caiu em função de uma
manobra irresponsável de dois pilotos americanos inconseqüentes?
Parece meio absurdo, como escaparam de morrer desta forma? A soma de
coincidências neste caso ultrapassa a barreira da realidade e do bom
senso. Foi uma grande coincidência que no avião estivesse um famoso
repórter americano pra divulgar a verdade com o acidente.
Também foi coincidência o fato de que o avião americano desligou o
transponder para que não fosse possível a localização da altitude do
avião. Que não foi possível que os controladores de vôo não conseguissem
comunicar nem com um avião nem com o outro. Porque o Boing da GOL não
respondeu o chamado do rádio?
Querem saber minha opinião? Porque todos já estavam mortos, devido a bomba
de gás que estava a bordo com o passageiro americano desconhecido.
Porque a Excel Air fez questão de filmar o LEGACY no momento da decolagem?
Imagino que seja para comprovar que ele não estava avariado quando subiu.
Mas não foi o LEGACY que colidiu com o vôo 1907!!! Se fosse, ele estaria
em pedaços.
Estamos diante de uma grande armação. Após isso o avião simplesmente
caiu!!! O LEGACY não estava lá por acaso, era simplesmente o maior
“laranja” da história.
Observem a lista dos passageiros, vão ver os nomes dos nossos heróis
brasileiros que foram assassinados pelo governo americano ou pela empresa
Cambrios Technologies, na Califórnia, que comercializa tecnologia
biológica em todo planeta.
Nossos membros do Ministério da Defesa, sabem do que estou falando.
Seus homens estavam lá pra proteger estas pessoas e suas pesquisas, ou
talvez mais uma coincidência?
Só o que espero é que nosso governo admita os fatos que ocorreram, e puna
com severidade os responsáveis pelo ocorrido.

A Construção do Estado Ateísta

February 13th, 2007 by andrevalente
Autor: Antonio Vides Júnior
Fonte: Sociedade da Terra Redonda
 

Era uma vez um casal de ateus que tinha uma filha de seis anos. Um dia, durante uma briga,
o marido matou a mulher e depois se matou com um tiro na cabeça, tudo na frente da criança…

Não importa como continua a história. Nós, ateus, conhecemos a sua moral. Fomos criados sob esses preconceitos. A maior parte de nós não nasceu ateísta nem teve pais ateus, ao contrário da infeliz historinha acima. Nascemos na maior nação cristã do mundo, somos batizados e sabemos o pai-nosso (com minúscula mesmo) de cor.

A moral cristã é impiedosa com os ateus. Nossa imagem não goza de status social e, invariavelmente, somos considerados estranhos e pecaminosos. É a nossa herança. Revoltadas, legiões de ateus se formam para proclamar sua aversão aos preceitos cristãos e da Igreja. O que é isso? Guerra?

A crença no além está enraizada na sociedade. Não podemos odiar aqueles que crêem. Estaremos odiando nossos pais e irmãos. “Mas como vamos combater esse preconceito com a nossa filosofia?” perguntarão alguns. Não vamos. Em vez disso, vamos encarar o problema de frente e mostrar a eles que nossa filosofia é, antes de tudo, baseada na humildade.

É difícil ser ateu. Encaramos a morte com olhos aterrorizados. A despeito de todos saberem que ela é inevitável, nós a encaramos como o fim de tudo. Não esperamos nada do além-túmulo. Não estamos indo ao encontro a deus ou a eternidade. Quando nos apaixonamos, não esperamos viver no paraíso ao lado de nossas esposas ou maridos. Tornar-se-á célebre a frase de Ann Druyan, viúva de Carl Sagan, um dos ateus mais respeitáveis dessa geração, ao falar da despedida do marido, no leito de morte: “Nenhum apelo a Deus, nenhuma esperança sobre uma vida pós-morte, nenhuma pretensão que ele e eu, que fomos inseparáveis por vinte anos, não estávamos dizendo adeus para sempre.” São palavras terríveis, mas sabemos que são verdade. Sabemos. A consciência ateísta, quando surge, nos eleva a uma percepção única. Passamos a enxergar a vida como a areia da ampulheta, que escorre inexoravelmente pela fenda. Não importa o quão correta tenha sido sua vida, no fim, a morte reina absoluta.

“Pessimista!”, gritam alguns frente a estas verdades. Já estamos acostumados. Somos ateus, percebemos nossa limitação. Somos feitos de carne e osso. Dúvidas quanto a isso? Cientistas já decifraram o código genético, não temos mais segredos. Até agora, nem sinal de um espírito. Estamos vazios.

Ora, retire do cristão a promessa da vida eterna. De que adiantaria, então, seguir os passos do Senhor? A religião está impregnada da relação oferta-procura: “Eu sou bonzinho, o Senhor me dá a vida eterna. Sou humilde, por isso viverei para sempre. Se a promessa da vida eterna fosse arrancada do Homem, este se revoltaria contra deus. Viveríamos num universo burlesco e trágico, onde os crentes tornar-se-iam os ateus da historinha acima. Ainda assim, é difícil afirmar que a crença em Deus está associada à ignorância. Conheço pessoas bastante inteligentes de todas as religiões. A questão é mais profunda do que isso. Está ligada ao resto de instinto de sobrevivência que temos.

Nossos ancestrais hominídeos eram caçados por animais maiores. Quase sempre, a morte era sangrenta e violenta. Desenvolvemos um medo natural por ela. Tínhamos medo de muitas coisas. Tínhamos medo da escuridão quando o Sol morria no horizonte ou quando as montanhas rugiam, soltando fumaça. Divinizamos aqueles fenômenos, não podíamos explicá-los, pois éramos pouco mais que macacos enormes e desengonçados, aprendendo a explorar suas potencialidades. Chorávamos quando tínhamos que abandonar um membro doente na migração do inverno ou quando nossos velhos eram expulsos da aldeia por não servirem mais ao trabalho. Não havia enterros e, talvez, nem piedade.

Estabelecemos morada para os deuses no alto das montanhas e no fundo do mar. Quando subimos ao cume das montanhas e cruzamos o oceano em toscos barcos de junco, empurramos os deuses para outras esferas. Nossos aviões nunca atropelaram um anjo, nunca encontramos um par de chifres enterrados no quintal de casa. Arrebatados para o “céu” ou o inferno, os deuses nunca mais foram acessíveis. Hoje, são vistos apenas em igrejas, por um número seletíssimo de escolhidos que têm a sorte de ver, mas nunca a chance de registrar.

Com o surgimento da tecnologia, tornaram-se fontes de luz ou sombras, receberam explicações espirituais complicadas e teorias esotéricas profundas e claras como um bueiro. Não precisamos disso. A humanidade tem criado seus pesadelos, mas também tem realizado sonhos sociais, materiais, divinos. Cientistas, no século XX, fizeram mais pela Humanidade (esta sim, com maiúscula) que deus fez em toda sua história. Empurramos a presença de deus cada vez mais para o fundo do poço. Não rezamos mais para curar as doenças. O papel de deus diminui a olhos vistos. Aprendemos a creditar nossos problemas à nossa incompetência ou ignorância, já não existem demônios a assombrar nossos feitos.

Essa é a verdadeira essência da humildade. Sabermos nosso papel na história do desenvolvimento humano, a consciência do fim cada vez mais próximo. A semelhança entre o Homem e o peixinho que ele cria no aquário é de 98% em ordem genética. Não há divindade no nosso nascimento, não há milagres no cotidiano.

A revelação da humildade chega ao ateu quando este encara, pela primeira vez, a inigualável sensação de livrar-se da culpa da religião, do pecado natural. Não precisamos de religião para aprender a humildade. Quando encaramos nossas limitações, ela surge naturalmente. Ficamos assombrados pela nossa ignorância e pela impotência frente a todo conhecimento. Aprendemos que até o matuto tem a nos ensinar.

Talvez a religião ainda seja um mal necessário. Quando deixarmos de ser julgados pelos crentes, talvez possamos expor nossas idéias com clareza. Neste dia, a humildade poderá florescer entre os homens, fundamentada em princípios humanos, e não em fantasias envolvendo deuses e demônios. Será um tempo, então, onde todos poderão considerar-se irmãos, pois ninguém esperará mais da vida do que seu semelhante.

 

Sobre o autor: Jornalista e assessor de Imprensa na Grube e Associados. Nascido em 1971, há doze anos estuda o ateísmo.

Os Fundamentos do Ateísmo

February 13th, 2007 by andrevalente
Autor: André Díspore Cancian
Fonte: Ateísmo & Liberdade, pp. 17-30
 

Por simples bom senso, não acredito em Deus. Em nenhum.

Charles Chaplin

Etimologicamente, a palavra ateu é formada pelo prefixo a – que denota ausência – e pelo radical grego theós – que significa Deus, divindade ou teísmo. Ou seja, a palavra ateu pode significar sem deus ou sem teísmo. Como a imprecisão desse primeiro significado o torna impróprio para representar a noção de descrença ateística, usa-se como base a acepção teísmo, que significa crença na existência de algum tipo de deus ou deuses de natureza pessoal. Neste caso, chegamos a uma definição mais coerente e clara de indivíduo ateu – aquele que não acredita na existência de qualquer deus ou deuses. Assim, quando queremos uma palavra que representa tal perspectiva, usamos o termo ateu ligado ao sufixo ismo, que, na língua portuguesa, é usado com o significado de doutrina, escola, teoria ou princípio artístico, filosófico, político ou religioso. E, deste modo, chegamos a uma definição bastante nítida do que é ateísmo: estado de ausência de crença na existência de qualquer deus ou deuses.

Antes de tudo, é importante salientar que, comumente, a maioria dos ateus, quando se refere à sua posição, diz apenas que não acredita em deus/deuses. Isso não está incorreto, mas, na verdade, com isso quer dizer que não acredita na existência de deus/deuses. Afirmar apenas “não acredito em Deus” pode dar margem à interpretação errônea de que a pessoa em questão acredita em sua existência, mas é contra Deus, contra seus mandamentos, ou então que não lhe dá qualquer crédito, o desacredita, o difama, fato este que, não raro, dá origem a vários preconceitos em relação à posição ateísta. Esclarecido este ponto, vejamos quais são os tipos de ateísmo existentes.

Há várias modalidades de ateísmo, as quais diferem fundamentalmente quanto à atitude do indivíduo para com a idéia de uma divindade. Vale lembrar que tais classificações são meramente didáticas, feitas apenas para delinear as circunstâncias mais comuns em que o ateísmo pode ser encontrado. As duas modalidades-tronco são: 1.0) – ateísmo implícito; 2.0) – ateísmo explícito. A primeira, filosoficamente, é pouco relevante, e subdivide-se em: 1.1) – ateísmo puro; 1.2) – ateísmo prático. A segunda subdivide-se em outras duas variedades que são comumente denominadas: 2.1) – ateísmo passivo ou ateísmo cético; 2.2) – ateísmo ativo ou ateísmo crítico.

1.0) – O ateísmo implícito, como o próprio nome indica, é a variedade de ateísmo que existe tacitamente. Neste caso, o ateísmo não se fundamenta na rejeição consciente e deliberada da idéia de deus, baseada em conceitos filosóficos e/ou científicos, mas simplesmente existe enquanto um estilo de vida que não leva em consideração a hipótese da existência de algum deus para se guiar. O ateísmo implícito pode ser dividido em ateísmo puro e ateísmo prático.

1.1) – O ateísmo puro é o estado de ausência de crença devido à ignorância ou à incapacidade intelectual para posicionar-se ante a noção da existência de uma divindade. Nesta categoria entram todos os indivíduos que nunca tiveram contato com a idéia de um deus; por exemplo, alguma tribo, grupo ou povo que se encontre isolado da civilização e que seja alheio à idéia de um deus. Também se enquadram nesta categoria os indivíduos incapazes de conceber a idéia de um deus – seja isto por imaturidade intelectual ou por deficiências mentais; por exemplo, poderíamos citar crianças de pouca idade; pessoas que sofrem de alguma enfermidade mental incapacitante também se enquadram nesta categoria.

1.2) – O ateísmo prático enquadra aqueles que tiveram contato com a idéia de deus, ou seja, que conhecem as teorias sobre as divindades, mas não tomam qualquer atitude no sentido de negá-la, rejeitá-la ou afirmá-la, permanecendo, deste modo, neutros sobre o assunto. Os integrantes desta categoria comumente se classificam como agnósticos, isto é, aqueles que julgam impossível saber com certeza se há ou não uma divindade. Sob esta ótica, devido a essa impossibilidade, afirmam que seria inútil qualquer esforço intelectual no sentido de comprovar ou refutar a existência de um deus. Qualquer pessoa que tem conhecimento da existência das religiões e de suas teorias, mas vive sem se preocupar se há ou não algum deus ou julga impossível sabê-lo com certeza, sem rejeitar ou afirmar explicitamente a idéia de deus, é classificada como pertencente ao ateísmo prático.

2.0) – O ateísmo explícito é a rejeição consciente da idéia de deus. A causa desta rejeição freqüentemente é fruto de uma deliberação filosófica; contudo, não é possível fazer qualquer espécie de generalização quanto à causa específica da descrença, pois cada pessoa julga individualmente quais razões são válidas ou inválidas para corroborar ou refutar a idéia da existência de um deus. O ateísmo explícito pode ser dividido em duas outras categorias.

2.1) – O ateísmo passivo ou cético é a descrença na existência de deus(es) devido à ausência de evidências em seu favor. Esta variedade também pode ser encontrada sob a denominação de “posição cética padrão”, pois reflete um dos axiomas mais fundamentais do pensamento cético, que é: não devemos aceitar uma proposição como verdadeira se não tivermos motivos para fazê-lo; ou, em sua versão lacônica: sem evidência, sem crença. O ateu desta categoria limita-se a encontrar motivos para justificar sua rejeição da idéia de deus, por vezes esforçando-se em demonstrar por que as supostas provas da existência divina são inválidas, mas sem se preocupar com a negação da possibilidade da existência de um deus.

2.2) – O ateísmo ativo ou crítico é a variedade mais difícil de ser defendida, pois é uma descrença que envolve a negação da possibilidade da existência de um deus. Os ateus desta categoria tipicamente se intitulam racionalistas e seguem o princípio de que o ataque é a melhor defesa. Ou seja, literalmente atacam a idéia de deus, evidenciando as contradições e as incongruências presentes neste conceito, empenhando-se em demonstrar, através de argumentos racionais, por que a existência de um deus – como definido pelas religiões – é logicamente impossível.

À primeira vista, talvez pareça que tais definições são demasiado singelas para serem capazes de abarcar todas as possibilidades, mas não são. Isso porque a posição ateísta, em si mesma, não é positiva, não possui qualquer conteúdo, pois não representa algo, mas apenas a ausência de algo; em suas categorias mais elaboradas, o ateísmo é uma ausência vinculada a uma rejeição ou a uma negação de algo largamente aceito, que, no caso, é o teísmo, em suas variadas formas.

Deste modo, a definição de ateísmo não subentende qualquer espécie de descrição prática do indivíduo. Nesta classificação, aquilo que os ateus fazem de suas vidas não é levado em consideração absolutamente. Ao contrário de outros ismos – como cristianismo, judaísmo, espiritismo, xintoísmo, hinduísmo, islamismo –, o ateísmo não é um estilo de vida nem uma doutrina dotada de um corpo de conhecimentos ou princípios, mas somente uma classificação acerca do posicionamento ou estado intelectual do indivíduo em relação à idéia de deus. Portanto, o ateísmo não possui natureza análoga às religiões teístas.

Uma vez que o ateísmo é apenas uma classificação – e não uma doutrina ou uma cosmovisão –, logicamente não incorpora qualquer espécie de valores, princ